Um Blog de dois erres, para todos os errantes.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Uniformização das mulheres

Por Rosa Estrada



Tem um comercial de lingerie que está sendo veiculado na TV, que chama atenção pelo machismo explícito. Parece chover no molhado falar de machismo em comercial, mas tem algumas campanhas publicitárias que são realmente chocantes. Mas essa propaganda à qual me refiro chamou minha atenção por três motivos:

1) O comercial mostra características masculinas totalmente irrelevantes como impedimentos para se ter relacionamentos com os homens que as possuem, como usar cueca de vinco, morar com a mãe, fazer as unhas etc.

2) O comercial reconhece que, num universo de 100, existem homens com as características as mais diversas, embora sejam traços mostrados como ruins, é verdade. Mas as mulheres são todas iguais: todas querem usar uma lingerie sexy para atrair um macho, como se não existissem as lésbicas, as que já são casadas, as que não estão em busca de um homem etc.

3) O comercial mostra as mulheres como inimigas e concorrentes entre si, na busca irrefreável por um homem, o que, afinal, é o que move toda mulher, segundo os publicitários que trabalharam nessa propaganda, é claro. E como se conquistar um homem só dependesse de usar uma lingerie sexy.

Pois é, não subestimemos as superestruturas.




segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sonho que se sonha só...

Por Rosa Estrada

Semana passada, eu li uma breve entrevista com uma atleta do jiu-jitsu, aspirante ao MMA. As perguntas eram meio bobas, todas focadas em como a moça conseguia, ao mesmo tempo, ser lutadora e mulher (com todas as implicações do gênero, criadas pelo senso comum). Mas enfim, a pergunta que me chamou atenção foi aquela inevitável quando a interlocutora é bela e jovem: "você tem namorado?" A moça respondeu que não, pois ela treina de 6 a 8 horas por dia e, segundo ela, é difícil encontrar alguém que entenda a sua rotina regrada. Isso me fez lembrar de uma outra esportista, dessa vez uma jogadora de basquete, que certa feita declarou que não se casou porque os homens com quem ela se relacionava sempre pediam que ela escolhesse entre eles e a bola. A atleta, espertamente, optou pelo esporte.
Sou completamente sedentária, mas todos sabem que qualquer atleta profissional tem uma rotina, de fato, bastante puxada e disciplinada. Porém, o que eu acho curioso é que, quando as esportistas são mulheres, elas sempre têm que explicar o porquê de estarem solteiras, caso estejam, e, quando explicam, muitas vezes atribuem a sua solteirice ao fato de ser difícil achar um parceiro que entenda seu modo de vida. Mas eu nunca vi um atleta do sexo masculino deixar de namorar/casar por conta de sua profissão. É muito comum ver jogadotres de basquete, lutadores ou o que quer que seja, casados. Geralmente, as namoradas/esposas parecem ser bastante compreensivas com suas rotinas de treino e ainda se mostram dispostas a acompanhá-los em viagens. Só que para o homem, quando se relaciona com uma mulher cuja carreira despende tamanho esforço e dedicação, a impressão é de que é muito mais difícil, praticamente impossível acompanhar e apoiar a parceira em seu trabalho. Por quê?
Na minha opinião, as mulheres são criadas para desenvolver uma capacidade muito maior de se doar pelo outro. Abdicar de seus próprios interesses para acompanhar e apoiar alguém, cujas aspirações parecem ser muito mais importantes do que as delas. Nisso se inclui o tal do amor materno, aquele que dizem que é incondicional, que supera qualquer coisa. Parece que a sociedade quer que toda mulher aja de acordo com esse padrão estereotipado de mãe, mesmo que a mulher não tenha filhos. Ela deve ser a mãe do companheiro, aquela que o apoia, o ajuda e o acompanha, ainda que isso implique numa auto-anulação. Mas vá exigir que um homem faça o mesmo. Ah, isso nunca! Muitos homens devem achar um absurdo ter uma companheira que se dedique com afinco à sua profissão, chegando ao ponto de às vezes terem a arrogância de pedir para elas escolherem entre eles e a carreira, como fizeram com aquela jogadora de basquete que eu mencionei, no início do post. E isso não acontece somente com esportistas, mas com profissionais de todas as áreas. Quem são eles para acharem que podem ser mais importantes do que um sonho, um projeto de vida? São coisas que incutem no senso comum. Os planos e sonhos dos homens é que são importantes, os que valem a pena. E as mulheres têm sempre que estar dispostas a abondonar os próprios projetos para agradar seus homens, afinal tudo o que uma mulher pode desejar na vida é casar e constituir família, não é mesmo?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Contra o obscurantismo





Por Rosa Estrada

Acabei de assistir ao vídeo acima, um dos filmes do kit contra a homofobia, e o considerei bastante singelo, sensível e bonito. Ri de toda a polêmica que esse kit gerou. Nas reportagens tendenciosas dos jornais da grande mídia, sempre aparecem pessoas para dizer que a homofobia não é um assunto a ser tratado na escola. Como não, se a escola é o primeiro espaço em queo ser humano tem a oportunidade de conviver com pessoas para além de seu círculo familiar; onde o indivíduo descobre que, para além das suas próprias crenças,opiniões e modo de vida, existe uma diversidade de outros modos de ser e de pensar? A escola não é e nunca foi APENAS um lugar onde as pessoas se acostumam com a ideia de se vender a vida inteira a um patrão. É na convivência com os coleguinhas da escola que pomos em prática tudo o que aprendemos em casa: discriminamos quem é diferente de nós, praticamos bullying, achamos que os professores são nossos escravos etc. Por que não aproveitar esse espaço social tão importante para discutir o preconceito, nesse caso contra os homossexuais?

E o pior de tudo é ver como tem força a tal bancada religiosa (leia-se evangélica) do Congresso. Essas criaturas obtusas conseguem muitos adeptos e têm bastante influência política, mesmo perdendo tempo militando por coisas que não vão acrescentar em nada à sociedade. Por que não se reúnem para fazer uma manifestação contra o descaso na educação, os cortes na aposentaria, o caos na saúde pública? Mas não, manipulados por seus mentores religiosos, preferem combater uma iniciativa contra o preconceito! Assimilam na igreja uma visão da realidade totalmente distorcida e em nenhum momento se questionam, como se a palavra do pastor fosse a palavra do próprio Deus! Nada contra o fato de a pessoa ser evangélica, a religião é uma opção pessoal de cada um, mas o que eu não admito é que algumas pessoas usem a religião para condenar e discriminar quem não está nos padrões delas. A porra do país é laico ou não é? Não suporto ver pessoas, no século XXI, optando pelo obscurantismo. Não admito isso, não depois de Marx, de Freud, de Darwin, dos hippies e da pílula anticoncepcional.

sábado, 9 de outubro de 2010

Em defesa da vida?



Por Rosa Estrada

Eu me considero uma pessoa de esquerda, mas às vezes sou assaltada por pensamentos um tanto quanto niilistas. Tenho pensado bastante sobre o segundo turno das eleições presidenciais. No embate Dilma x Serra, salta aos olhos o fato de que se trata de uma disputa sobre qual dos dois é mais fascista. E pior, é no que for considerado mais fascista que o povo vai votar, em sua maioria. Em relação à polêmica das correntes de internet segundo as quais Dilma seria a favor da legalização do aborto, da união civil entre homossexuais e sei lá mais o que, me impressiona que esses tais boatos seriam para os eleitores motivos para não se votar na candidata petista. Agora eu pergunto: se Dilma legalizasse o aborto ou deixasse viado se casar, isso iria afetar em que a sociedade brasileira? Em nada, creio eu. No entanto, causa no povão um horror comparável ao holocausto somente a possibilidade de Dilma estar a fim de empreender qualquer uma dessas medidas progressistas às quais ela está sendo acusada de ser afeita. E Serra se aproveita da polêmica, aproveitando para ressaltar o quanto se coloca em "defesa da vida" e se diz abertamente contra o aborto, supondo com isso estar agradando o passional eleitorado. Não satisfeito, ainda veicula uma propaganda ridícula, para dizer o mínimo, com umas mulheres grávidas acariciando suas volumosas barrigas ao som de dizeres do tipo "o maior milagre da vida é gerar uma vida" e outras baboseiras fascistóides do gênero. Na mesma propaganda, a coligação de Serra ainda promete inaugurar uma política chamada Mãe Brasileira, na qual as parturientes recebem enxoval assim que o bebê nasce. Fiquei com vontade de arrancar o útero ao ver e escutar tantos disparates. Porra, quer dizer então que a mulher só veio ao mundo pra parir?! E quanto ao planejamento familiar e à legalização do aborto? Eu, como mulher, cidadã e explorada pelo sistema, exijo ter o direito de fazer sexo o quanto quiser sem o risco de engravidar. Exijo acesso gratuito a camisinha e outros métodos anticoncepcionais, e reivindico inclusive a possibilidade de fazer um aborto em condições dignas, caso os métodos falhem. Não admito que o Serra, o Malafaia ou o Papa me ponham cinto de castidade, nem que eu seja obrigada a parir se eu por acaso engravidar.
Fico impressionada também com a credulidade do povo. Acreditar em teoria de conspiração de internet?! Não vou nem comentar a baixeza dessa estratégia desesperada da coligação pró-Serra. Só queria deixar aqui o meu alerta para os partidos de esquerda. Seja como for, o povo está suscetível a assimilar todo tipo de informação. Porém, só a direita se aproveita disso para disseminar teorias da conspiração de cunho fascista, no que aliás tem sido muito bem sucedida. Às vezes eu tenho a impressão de que só a direita milita. As classes dominantes continuarão conseguindo nos impor sua visão de mundo e nos convencem de que as necessidades das elites são as necessidades de todos. Infelizmente os pobres no Brasil não têm consciência de classe, não se reconhecem como classe explorada. O pobre sempre acha que é mais remediado que o vizinho. O pobre é convencido de que sua vida não é tão ruim assim. O pobre acha certo quando a polícia dizima jovens pretos e periféricos e acredita quando o jornal diz que as vítimas tinham envolvimento no tráfico. Enfim, o pobre tem a ilusão de que é igual ao burguês, de que o que beneficia o burguês o beneficia também, que um governo para empresários é um governo que pode favorecê-lo. Se os partidos de esquerda finalmente penetrassem nas massas, as organizassem, e mostrassem o quanto as mesmas são exploradas e o quanto é necessário o fim do capitalismo, finalmente vislumbrar a mudança. Senão, os comunistas continuarão sendo vistos como bandidos e inimigos do povo.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O que quer uma mulher?



Por Rosa Estrada
Engraçado. Já vi poeta por aí se fazer essa pergunta e tecer inúmeras metáforas e outras figuras de linguagem pseudo-inspiradas para apresentar como respostas. Bom, como sou mulher, e uma mulher bastante crítica,  atrevo-me a responder essa pergunta.

As mulheres se odeiam entre si. Não há como negar isso. É algo perceptível para homens e mulheres, mesmo que algumas delas não admitam. As mulheres alimentam uma feroz concorrência entre si e utilizam das armas que têm a fim de passar as outras para trás. Qual a razão disso? Simples. Vivemos numa sociedade em que tudo virou mercadoria. Inclusive os indivíduos. Comportando-se como mercadorias, as mulheres utilizam dos mais variados artifícios para se tornarem o mais atraentes possíveis aos homens e , assim, ter mais chances de conseguir um bom casamento. Sim, ainda hoje, no século XXI, isso é tudo o que as mulheres mais desejam: ter um homem para se encostar. Não importa cor, grau de instrução, religião ou condição social, o objetivo mor da vida da imensa maioria das mulheres é casar com um homem que possa sustentá-las e, se possível, levá-las para passear de carro, viajar e gastar o seu cartão de crédito.

Portanto, essa é a conduta que norteia a vida das mulheres. O amor? Ah, amor e quaisquer outros sentimentos são puras bobagens. Você não precisa amar seu marido, nem a si própria. Se por acaso ele se achar seu dono e quiser mandar em você, lhe dizer o que fazer, aonde ir e com quem se relacionar, releve. Ignore até mesmo se ele lhe der umas palmadinhas. Afinal, até que de vez em quando você merece mesmo umas regulagens. E depois, o que é isso diante do maravilhoso fato de o marido entregar nas suas mãos o seu ordenado do mês, para que você possa administrar o dinheiro como lhe aprouver? Nada. O que mais mais mulher pode querer? Com um bom homem do lado, não precisamos enfrentar a vida. Só ficar em casa, cuidando dos afazeres domésticos e conhecendo o mundo através do que o marido diz quando chega o trabalho, sem o risco incômodo de nos dispormos a conhecer a vida e vê-la com nossos próprios olhos. Ficamos protegidas como quando éramos crianças.

Mas lembremos que o autocomércio não é exclusividade das mulheres. Os homens também têm seu valor de mercado. Todos somos mercadorias, homens, mulheres, não importa. Se as mulheres se vendem pelo sexo, os homens se vendem por outros preços tão ou mais baixos, e por motivos tão ou mais vis.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

R.I.P. Ronnie James Dio




Por Rosa Estrada

Uso este espaço no Erres Errantes para prestar a minha homenagem póstuma a este grande artista. Ainda era criança, mas lembro muito bem da fita k7 que minha irmã tinha, que começava com um heavy metal contagiante, com um vocal poderoso. Demorei para descobrir que a música era intitulada "Holy Diver", e a voz era de um certo Ronnie James Dio. Muitos anos se passaram desde então e até hoje sinto um frio na barriga com aquela introdução atmosférica, minha pele se arrepia com os primeiros acordes, e meu coração dispara quando escuto a voz com o timbre único e belíssimo de Ronnie James. O que dizer então da ocasião em que escutei o disco Heaven and Hell, do Black Sabbath, pela primeira vez? Suei frio escutando "Children of the Sea", linda composição de Ronnie. Depois, eu continuaria me emocionando com "Self Portrait" e "Catch the rainbow" do Rainbow, "Sign of the Southern Cross" do Black Sabbath, "Rainbow in the dark" da sua carreira solo. Seja no Elf, no Rainbow, no Black Sabbath ou solo, Dio sempre foi fantástico como cantor e compositor. Não foi pretensioso da parte dele adotar esse nome artístico. Ronnie James é mesmo um DIO.




sexta-feira, 7 de maio de 2010

Homenagem ao Dia das Mães

Por Rosa Estrada


É insuportável ver os meios de comunicação de massa em suas hipócritas ovações às mães, agora que o tal dia das parideiras está próximo. Veja bem, não tenho nada contra as mães. Tem filho quem quer, cria quem pode. Mas o que me deixa indignada é a insistência da mídia em ressaltar o quanto é maravilhoso dar à luz, o quanto é incomensurável o amor materno, o quanto a mulher que ainda não pariu é incompleta, e outras pieguices e absurdos do gênero. Até aquela cantora do povão protagonizou uma propaganda dizendo que, quando teve seu filho, descobriu que foi para isso que ela existe enquanto fêmea. Entretanto, ninguém parece lembrar de todas as questões que envolvem os direitos reprodutivos da mulher no Brasil. O Dia das Mães vai passar, e o aborto vai continuar sendo um assunto varrido para debaixo do tapete. As mulheres continuarão sendo recriminadas por exercerem sua sexualidade, e as que optarem pelo aborto serão condenadas a recorrer a remédios ilegais, a clínicas clandestinas, sujeitas às penalidades da lei como se fossem psicopatas, como se a interrupção da gravidez fosse algo prazeroso e que não provocasse nenhum trauma. Aquelas que optarem por dar à luz permanecerão à mercê de um caótico sistema público de saúde, sem saber se elas e seus bebês voltarão vivos e inteiros dos hospitais-açougues. O machismo continuará reinando na sociedade, delegando exclusivamente à mulher a responsabilidade de criar os filhos, cuidar quando doentes, prepará-los para a vida, enquanto aos homens caberá no máximo inseminar e depois dar sessenta reais de pensão por mês. E assim caminha a humanidade.